JOAQUIM VITAL e o Fim da EDITORA la DIFFÉRENCE
Ontem recebi a sentença de morte da editora que foi a tua luta, a luta contra um país e um mundo cinzentos, a luta por livros que se escrevem, que se traduzem, que se editam, mas que, acima de tudo, livros que se amam! Após a tua morte fiel à tua vida, esta é a notícia final de um mundo em agonia. La Différence, a colecção Orphée, foi um dos meus faróis poéticos, o mais importante de todos. Ainda me lembro a primeira vez, numa livraria do Quartier Latin , em que gastei todas as minhas parcas economias em livros dessa colecção única de poesia, livros bilingues de todas as línguas! Agora recebo a carta da despedida, a última que vou receber, da voz, da tua voz, na voz comovida dos que herdaram o teu espírito. Deixo-a aqui, assim como a notícia do Le Monde, aquando da tua morte: para que neste mundo de insolvências económicas a poesia, última voz a resistir, resista e combata duramente a realidade dos que nos querem reduzir a mercadores de escravos!
Bem-haja Joaquim Vital! Há sempre um que ladra!
Ficam os teus versos, usados pela tua companheira de vida, nesta despedida:
"« Les années de bonheur, les journées
sans remords, on vous les a offertes,
ô Grands Démolisseurs.
Lourde a été la dîme,
parfaite votre œuvre :
irréparable.
(Irrepérable, la piste des décombres.) »
Joaquim Vital, Un qui aboie
La lettre de juin 2017
FINALE
Les Éditions de la Différence ont été mises en liquidation le 20 juin 2017.
Tout le travail accumulé depuis plus de 40 ans va être vendu à l’encan et les collaborateurs de la maison, licenciés. Le tribunal n’a pas accédé à la demande de redressement sollicitée par Claude Mineraud, le président de la société, qui n’a pourtant pas ménagé ses efforts pour assurer la pérennité de la maison. Les retours trop nombreux des livres que nous avons publiés ont eu raison de notre résistance. Peut-être faisons-nous partie du monde d’avant.
Le programme de publications de la rentrée ne pourra être honoré. Il est inutile de vous préciser que nous sommes tous meurtris par cette décision qui va, notamment, empêcher la sortie de la nouvelle traduction du Livro do Desassossego de Fernando Pessoa dans la magnifique traduction de Marie-Hélène Piwnik.
Une année de campagne électorale nous aura été fatale car il n’est guère possible d’attendre pour payer les salaires, les charges, les loyers etc.
Je salue ici les collaborateurs de la Différence qui ont fait vivre la maison depuis si longtemps et qui sont tous d’une remarquable compétence professionnelle. Par ordre d’ancienneté, Chantal Dukers, Parcidio Gonçalves, Jacques Clerc-Renaud, Sonia Vital et, plus récemment, Pascal Barale et Laurent Ricciardi. Ils vont se retrouver au chômage dans un marché de l’emploi toujours plus restreint. Si vous cherchez à recruter ou si vous entendez autour de vous des gens qui recrutent, inscrivez-les sur vos tablettes.
À tous les auteurs, traducteurs, peintres, sculpteurs, poètes, amis de la maison, j’adresse un salut fraternel et leur souhaite bon vent dans le monde en marche, qui, en dépit des empathies qu’il suscite, est, sans merci n’en doutez pas.
Pour clore, ces quelques vers de Joaquim Vital, extraits de Un qui aboie :
« Les années de bonheur, les journées
sans remords, on vous les a offertes,
ô Grands Démolisseurs.
Lourde a été la dîme,
parfaite votre œuvre :
irréparable.
(Irrepérable, la piste des décombres.) »
Colette Lambrichs
Notícia do Le Monde, no já longínquo ano de 2010, parcial:
Il avait tant joué à défier la mort en usant à l'excès des plaisirs de la vie - la bonne chère, les tabacs, les alcools raffinés - que ses amis le pensaient invincible. L'éditeur Joaquim Vital est mort d'une crise cardiaque, dans un café de Lisbonne, sa ville natale, vendredi 7 mai, à l'âge de 61 ans.
Jeune Portugais engagé politiquement, hostile au régime de Salazar, il est emprisonné à 16 ans, part pour la Belgique à 18 ans, et s'installe à Paris en 1973. Trois ans plus tard, désireux de faire mieux connaître la littérature portugaise en France, de découvrir aussi des auteurs français et d'entreprendre des publications que les grands éditeurs négligeaient, il crée, avec Marcel Paquet et Patrick Waldberg, les Editions de la Différence, dont le logo est dessiné par André Masson. Ils sont vite rejoints par Colette Lambrichs, qui devient la compagne de Joaquim Vital.
Les trois premiers titres donnaient déjà le ton de ce qui allait devenir un remarquable catalogue, exigeant et hétéroclite, ouvert à la littérature et aux livres d'art : Pour l'amour de mourir, de Malcolm Lowry, Les Origines de la statuaire de Chine, de Victor Segalen, et Les Demeures d'Hypnos, de Patrick Waldberg. Sans vouloir se spécialiser, Joaquim Vital a eu à coeur de publier de la littérature portugaise, notamment Fernão Mendes Pinto, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Maria Judite de Carvalho, Vergilio Ferreira, Eugénio de Andrade... Lui-même a traduit certains textes de Pessoa et Vasco Graça Moura.
A partir de 1987, La Différence a entrepris la publication de volumes d'oeuvres complètes d'auteurs classiques : Fernando Pessoa, Homère, Henry James, Pindare, Virgile, Hölderlin...
Joaquim Vital n'était certes pas un gestionnaire avisé, et sa maison a connu de nombreuses difficultés financières, mais il a toujours pu continuer à publier, à découvrir. A créer, aussi, de nouvelles collections : "Orphée", dirigée par Claude-Michel Cluny, pour la poésie, "Minos", dirigée par Colette Lambrichs (poche), ou "La vue le texte", dirigée par Harry Jancovici, où l'on trouve notamment Francis Bacon, logique de la sensation, de Gilles Deleuze, et De Kooning, vite, de Philippe Sollers.(...), etc
Josyane Savigneau
Deixo também o artigo do Público, que repesco:
"Era a ele que se devia em grande medida o conhecimento que os franceses têm da literatura portuguesa. Joaquim Vital, editor e escritor, criador da Éditions de La Différence, morreu anteontem
O editor e escritor português Joaquim Vital, um dos principais divulgadores da literatura portuguesa em França, criador das Éditions de La Différence, morreu anteontem, subitamente, quando se encontrava num café, em Lisboa. Tinha 62 anos. O corpo encontra-se no Instituto de Medicina Legal e o funeral está previsto para terça-feira, mas ainda não se sabe a hora nem o local.
O jornal Libération chamou-lhe "o bom dinossauro irascível" e havia outros que o apelidavam de "Orson Welles dos livros", pela compostura física, mas também pela determinação e afabilidade.
"Era um príncipe de esquerda", descrevia ontem ao P2 o escritor Urbano Tavares Rodrigues, de quem a La Différence editou a quase totalidade da obra. "Tinha muita cultura, elegância de maneiras, tinha amigos em toda a parte, tinha muito mundo. A sua editora era extraordinária. Para além de editar inúmeros autores franceses, prestou grandes serviços à cultura portuguesa."
O escritor Mário Cláudio - de quem a La Différence editou Amadeo, Guilhermina e Rosa - recorda a personalidade "excêntrica, mas muito afectuosa e cosmopolita" e um físico "que fazia lembrar o Mário de Sá-Carneiro". A sua morte, afirma o escritor, "é uma grande perda para a cultura portuguesa pela acção que desenvolveu de divulgação da literatura portuguesa, colocando autores portugueses contemporâneos ao lado de autores franceses importantes, como a Marguerite Duras, que também editou".
Para além da edição, Joaquim Vital também se dedicou à escrita de quatro livros. Um deles, Adieu à Quelques Personnages (2004) é um olhar sobre a sua vida através de 42 figuras das letras e artes plásticas com quem privou, como Max Ernst, Joan Miró, Gilles Deleuze, Vieira da Silva ou o amigo Júlio Pomar. Da sua autoria são também o livro de poemas Un qui Aboie (2000), o volume de contos La Vie et le Reste (2008) e a antologia de textos e imagens Vingt Ans, Bilan sans Perspective (1996).
Nascido em Lisboa, em 1948, exilou-se por razões políticas em Bruxelas, em 1966, antes de rumar a Paris sete anos mais tarde.
Foi aí que viria a fundar, em 1976 - já depois de ter estado em Portugal por ocasião do 25 de Abril de 1974 -, as Éditions La Différence, uma editora que se dedicou à literatura, ao ensaio, à poesia e à arte contemporânea. Um catálogo ecléctico, com mais de 1600 títulos publicados, entre eles cerca de 120 pertencentes a autores portugueses, como Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Fernão Mendes Pinto, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner, Virgílio Ferreira, Eugénio de Andrade, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco Graça Moura ou Maria Judite de Carvalho.
Em 2007, em entrevista ao PÚBLICO, confessava que, no princípio da editora, não estava virado para o lançamento de portugueses. "Foi uma fase em que quase cortei com o país", dizia. "Mas, depois, apercebi-me de que havia tais lacunas em relação à difusão da literatura portuguesa que resolvi fazê-lo."
Publicar o que achava bom
Era ainda adolescente quando editou um livro de ensaios de Urbano Tavares Rodrigues, Escritos Temporais. "Conheci-o em 1963, era ele um jovem do Partido Comunista. Foi antes de ser preso, condenado e torturado e sair clandestinamente para a Bruxelas" recorda o escritor.
Também em declarações ao P2, o historiador, ensaísta e tradutor francês Pierre Léglise-Costa, que trabalhou em vários títulos da La Différence, considerou a morte de Joaquim Vital "uma perda" - não só para Portugal, mas também "para o meio literário francês", onde era uma personalidade reconhecida.
"Impôs planos editoriais fora do comum, no campo da história da arte, com artistas portugueses também, como o Júlio Pomar e o José Guimarães, e foi fundamental na divulgação em França de Eça, Urbano Tavares Rodrigues ou Mário Carvalho", afirma, recordando o equilibro frágil de uma editora independente, mas ao mesmo tempo a capacidade de, a cada lançamento, "renascer das cinzas".
A La Différence editou os dois primeiros livros, de poemas, do controverso Michel Houellebecq e Francis Bacon, da autoria do filósofo francês Gilles Deleuze, foi dos que mais se vendeu. Apesar da grande paixão de Joaquim Vital ser a poesia e a literatura, eram os livros de arte que equilibravam as contas. Mas isso nunca o impediu de apostar na sua paixão, como disse na mesma entrevista ao PÚBLICO: "O sector literário é mais difícil. Mas o meu único critério é publicar um livro se o acho bom."
VÍTOR BELANCIANO
Ontem recebi a sentença de morte da editora que foi a tua luta, a luta contra um país e um mundo cinzentos, a luta por livros que se escrevem, que se traduzem, que se editam, mas que, acima de tudo, livros que se amam! Após a tua morte fiel à tua vida, esta é a notícia final de um mundo em agonia. La Différence, a colecção Orphée, foi um dos meus faróis poéticos, o mais importante de todos. Ainda me lembro a primeira vez, numa livraria do Quartier Latin , em que gastei todas as minhas parcas economias em livros dessa colecção única de poesia, livros bilingues de todas as línguas! Agora recebo a carta da despedida, a última que vou receber, da voz, da tua voz, na voz comovida dos que herdaram o teu espírito. Deixo-a aqui, assim como a notícia do Le Monde, aquando da tua morte: para que neste mundo de insolvências económicas a poesia, última voz a resistir, resista e combata duramente a realidade dos que nos querem reduzir a mercadores de escravos!
Bem-haja Joaquim Vital! Há sempre um que ladra!
Ficam os teus versos, usados pela tua companheira de vida, nesta despedida:
"« Les années de bonheur, les journées
sans remords, on vous les a offertes,
ô Grands Démolisseurs.
Lourde a été la dîme,
parfaite votre œuvre :
irréparable.
(Irrepérable, la piste des décombres.) »
Joaquim Vital, Un qui aboie
La lettre de juin 2017
FINALE
Les Éditions de la Différence ont été mises en liquidation le 20 juin 2017.
Tout le travail accumulé depuis plus de 40 ans va être vendu à l’encan et les collaborateurs de la maison, licenciés. Le tribunal n’a pas accédé à la demande de redressement sollicitée par Claude Mineraud, le président de la société, qui n’a pourtant pas ménagé ses efforts pour assurer la pérennité de la maison. Les retours trop nombreux des livres que nous avons publiés ont eu raison de notre résistance. Peut-être faisons-nous partie du monde d’avant.
Le programme de publications de la rentrée ne pourra être honoré. Il est inutile de vous préciser que nous sommes tous meurtris par cette décision qui va, notamment, empêcher la sortie de la nouvelle traduction du Livro do Desassossego de Fernando Pessoa dans la magnifique traduction de Marie-Hélène Piwnik.
Une année de campagne électorale nous aura été fatale car il n’est guère possible d’attendre pour payer les salaires, les charges, les loyers etc.
Je salue ici les collaborateurs de la Différence qui ont fait vivre la maison depuis si longtemps et qui sont tous d’une remarquable compétence professionnelle. Par ordre d’ancienneté, Chantal Dukers, Parcidio Gonçalves, Jacques Clerc-Renaud, Sonia Vital et, plus récemment, Pascal Barale et Laurent Ricciardi. Ils vont se retrouver au chômage dans un marché de l’emploi toujours plus restreint. Si vous cherchez à recruter ou si vous entendez autour de vous des gens qui recrutent, inscrivez-les sur vos tablettes.
À tous les auteurs, traducteurs, peintres, sculpteurs, poètes, amis de la maison, j’adresse un salut fraternel et leur souhaite bon vent dans le monde en marche, qui, en dépit des empathies qu’il suscite, est, sans merci n’en doutez pas.
Pour clore, ces quelques vers de Joaquim Vital, extraits de Un qui aboie :
« Les années de bonheur, les journées
sans remords, on vous les a offertes,
ô Grands Démolisseurs.
Lourde a été la dîme,
parfaite votre œuvre :
irréparable.
(Irrepérable, la piste des décombres.) »
Colette Lambrichs
Notícia do Le Monde, no já longínquo ano de 2010, parcial:
Il avait tant joué à défier la mort en usant à l'excès des plaisirs de la vie - la bonne chère, les tabacs, les alcools raffinés - que ses amis le pensaient invincible. L'éditeur Joaquim Vital est mort d'une crise cardiaque, dans un café de Lisbonne, sa ville natale, vendredi 7 mai, à l'âge de 61 ans.
Jeune Portugais engagé politiquement, hostile au régime de Salazar, il est emprisonné à 16 ans, part pour la Belgique à 18 ans, et s'installe à Paris en 1973. Trois ans plus tard, désireux de faire mieux connaître la littérature portugaise en France, de découvrir aussi des auteurs français et d'entreprendre des publications que les grands éditeurs négligeaient, il crée, avec Marcel Paquet et Patrick Waldberg, les Editions de la Différence, dont le logo est dessiné par André Masson. Ils sont vite rejoints par Colette Lambrichs, qui devient la compagne de Joaquim Vital.
Les trois premiers titres donnaient déjà le ton de ce qui allait devenir un remarquable catalogue, exigeant et hétéroclite, ouvert à la littérature et aux livres d'art : Pour l'amour de mourir, de Malcolm Lowry, Les Origines de la statuaire de Chine, de Victor Segalen, et Les Demeures d'Hypnos, de Patrick Waldberg. Sans vouloir se spécialiser, Joaquim Vital a eu à coeur de publier de la littérature portugaise, notamment Fernão Mendes Pinto, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Maria Judite de Carvalho, Vergilio Ferreira, Eugénio de Andrade... Lui-même a traduit certains textes de Pessoa et Vasco Graça Moura.
A partir de 1987, La Différence a entrepris la publication de volumes d'oeuvres complètes d'auteurs classiques : Fernando Pessoa, Homère, Henry James, Pindare, Virgile, Hölderlin...
Joaquim Vital n'était certes pas un gestionnaire avisé, et sa maison a connu de nombreuses difficultés financières, mais il a toujours pu continuer à publier, à découvrir. A créer, aussi, de nouvelles collections : "Orphée", dirigée par Claude-Michel Cluny, pour la poésie, "Minos", dirigée par Colette Lambrichs (poche), ou "La vue le texte", dirigée par Harry Jancovici, où l'on trouve notamment Francis Bacon, logique de la sensation, de Gilles Deleuze, et De Kooning, vite, de Philippe Sollers.(...), etc
Josyane Savigneau
Deixo também o artigo do Público, que repesco:
"Era a ele que se devia em grande medida o conhecimento que os franceses têm da literatura portuguesa. Joaquim Vital, editor e escritor, criador da Éditions de La Différence, morreu anteontem
O editor e escritor português Joaquim Vital, um dos principais divulgadores da literatura portuguesa em França, criador das Éditions de La Différence, morreu anteontem, subitamente, quando se encontrava num café, em Lisboa. Tinha 62 anos. O corpo encontra-se no Instituto de Medicina Legal e o funeral está previsto para terça-feira, mas ainda não se sabe a hora nem o local.
O jornal Libération chamou-lhe "o bom dinossauro irascível" e havia outros que o apelidavam de "Orson Welles dos livros", pela compostura física, mas também pela determinação e afabilidade.
"Era um príncipe de esquerda", descrevia ontem ao P2 o escritor Urbano Tavares Rodrigues, de quem a La Différence editou a quase totalidade da obra. "Tinha muita cultura, elegância de maneiras, tinha amigos em toda a parte, tinha muito mundo. A sua editora era extraordinária. Para além de editar inúmeros autores franceses, prestou grandes serviços à cultura portuguesa."
O escritor Mário Cláudio - de quem a La Différence editou Amadeo, Guilhermina e Rosa - recorda a personalidade "excêntrica, mas muito afectuosa e cosmopolita" e um físico "que fazia lembrar o Mário de Sá-Carneiro". A sua morte, afirma o escritor, "é uma grande perda para a cultura portuguesa pela acção que desenvolveu de divulgação da literatura portuguesa, colocando autores portugueses contemporâneos ao lado de autores franceses importantes, como a Marguerite Duras, que também editou".
Para além da edição, Joaquim Vital também se dedicou à escrita de quatro livros. Um deles, Adieu à Quelques Personnages (2004) é um olhar sobre a sua vida através de 42 figuras das letras e artes plásticas com quem privou, como Max Ernst, Joan Miró, Gilles Deleuze, Vieira da Silva ou o amigo Júlio Pomar. Da sua autoria são também o livro de poemas Un qui Aboie (2000), o volume de contos La Vie et le Reste (2008) e a antologia de textos e imagens Vingt Ans, Bilan sans Perspective (1996).
Nascido em Lisboa, em 1948, exilou-se por razões políticas em Bruxelas, em 1966, antes de rumar a Paris sete anos mais tarde.
Foi aí que viria a fundar, em 1976 - já depois de ter estado em Portugal por ocasião do 25 de Abril de 1974 -, as Éditions La Différence, uma editora que se dedicou à literatura, ao ensaio, à poesia e à arte contemporânea. Um catálogo ecléctico, com mais de 1600 títulos publicados, entre eles cerca de 120 pertencentes a autores portugueses, como Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Fernão Mendes Pinto, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner, Virgílio Ferreira, Eugénio de Andrade, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco Graça Moura ou Maria Judite de Carvalho.
Em 2007, em entrevista ao PÚBLICO, confessava que, no princípio da editora, não estava virado para o lançamento de portugueses. "Foi uma fase em que quase cortei com o país", dizia. "Mas, depois, apercebi-me de que havia tais lacunas em relação à difusão da literatura portuguesa que resolvi fazê-lo."
Publicar o que achava bom
Era ainda adolescente quando editou um livro de ensaios de Urbano Tavares Rodrigues, Escritos Temporais. "Conheci-o em 1963, era ele um jovem do Partido Comunista. Foi antes de ser preso, condenado e torturado e sair clandestinamente para a Bruxelas" recorda o escritor.
Também em declarações ao P2, o historiador, ensaísta e tradutor francês Pierre Léglise-Costa, que trabalhou em vários títulos da La Différence, considerou a morte de Joaquim Vital "uma perda" - não só para Portugal, mas também "para o meio literário francês", onde era uma personalidade reconhecida.
"Impôs planos editoriais fora do comum, no campo da história da arte, com artistas portugueses também, como o Júlio Pomar e o José Guimarães, e foi fundamental na divulgação em França de Eça, Urbano Tavares Rodrigues ou Mário Carvalho", afirma, recordando o equilibro frágil de uma editora independente, mas ao mesmo tempo a capacidade de, a cada lançamento, "renascer das cinzas".
A La Différence editou os dois primeiros livros, de poemas, do controverso Michel Houellebecq e Francis Bacon, da autoria do filósofo francês Gilles Deleuze, foi dos que mais se vendeu. Apesar da grande paixão de Joaquim Vital ser a poesia e a literatura, eram os livros de arte que equilibravam as contas. Mas isso nunca o impediu de apostar na sua paixão, como disse na mesma entrevista ao PÚBLICO: "O sector literário é mais difícil. Mas o meu único critério é publicar um livro se o acho bom."
VÍTOR BELANCIANO
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