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domingo, 24 de março de 2019

Fotografia
'Ondas Paradas de Probabilidade', de Mira Schendel (1919- 1988) (artista plástica, Brasil), in Tate Gallery




Ana Cristina César ( 1952 — 1983) poeta, Brasil

1.
olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas



2.
O Homem Público N. 1 (Antologia)

Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.
Não há razão
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.


3.
Nada, Esta Espuma

Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia.



4.
Não sei como poderei pegar no sono. A literatura me perturba. Uma caixa cheia de cartões-postais me perturba. A renúncia me perturba. Até uma caixa d’água, um otorrino gauche, um índice onomástico. Tomo tudo na veia"
ANA C. EM CARTA DIRIGIDA AO AMIGO E POETA ARMANDO FREITAS FILHO

música
Requiem pour l'émancipation du sujet rationnel - Rubens Russomanno Ricciardi
https://youtu.be/ShKUQdG_IZ8
Foto

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