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sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

série
na orla do invisível
2017, josé

quero ver
nos teus olhos toda a minha confusão
eu que mergulho nos rios
e guardo os ventos nas suas margens
sei que no meu corpo obscurecido
dormimos ambos
nas sombras suaves dos passos que damos
nos abraços cálidos do fim de tarde-
fosse eu incógnito
e nada soubesse de ti
diria que divido o mundo
em palavras e chamas
em palavras que ardem
e chamas que falam
na lenta decapitação das horas
das que vens e não vens
das que te sei perdida e atrasada
em ruas que só eu conheço
onde só eu passo-
li todos os livros de alquimia
nas horas de ser noite
e o que digo
é um pássaro pousado
no meio de uma floresta escura-
estremeço e tento mais uma vez falar
como se fosse parente das pedras
e o frio me devorasse
nos seus dentes caninos
e levasse os meus olhos
para eles verem o que há tão longe de mim
para que seja monstro cego
e entre na lava dos vulcões
de pés nus sem sentir dor
nem as queimaduras breves dos teus lábios-
o resto já não o posso dizer
esqueci nos espelhos
todas sa minhas imagens
e bêbado do que não sou
deixo que me olvides na tua garganta
e que meu corpo pasmado da tua ausência
conheça o rigor das mãos dos marceneiros
que tocam na madeira
como quem inventa rosas perfeitas-
2017, josé

música
SATIE minute (12/46*): JE TE VEUX (Chanson, 1897/ Lene Strindberg & Alan Newcombe)
https://youtu.be/S7kXpueqDZ0
Foto

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