fotografia
à espera do espectáculo
quem?eu? não, tu!
josé
Desculpai que vos diga: mas há em mim uma coisa estranha, um desejo incontrolado, que me aparece todas as noites. Não sei se sofreis também de tamanho problema que me incomoda a vida, (não, não é a bexiga!) como uma formiga na cama a percorrer o corpo.
Como adivinhastes? É isso mesmo. Há em mim um desejo nocturno de ser formiga!
Não que eu aprecie muito quem rasteja e a arte de viver em formigueiros. Mas o meu pensamento é um formigueiro que quer ser uma simples formiga. Eu sei e conheço a fábula, não é preciso lembrar-me o canto das cigarras, o verão e a fome do inverno. Não quero salvar o couro e ter comida garantida para o inverno. Aliás, se eu fosse cigarra só cantava de inverno, porque se tenho que morrer que morra a cantar.
Mas não quero ser cigarra: prefiro o pesadelo operário das formigas, aquele passinho miúdo no carreiro, aquela carreira de animaizinhos de fraque, cientes do seu destino, que mal se distinguem do préstito funerário.
Talvez tenha alma de formiga: o que é certo, no meio de tudo, é que à noite me assalta um impulso quase criminoso de ser uma formiga. De andar a pensar no futuro, como coisa certa e garantida, de amealhar pequenas migalhas, pequenas poupanças, de pertencer a brigadas, de ir em fileira, de ser a sombra da outra e, de repente, num impulso ordenado e militar, todos em parada, e vai de fazer o trabalhinho para nos salvarmos.
Eu sei que estou a ser injusto: as formigas são essenciais e até têm alegria, controlada ao cronómetro claro, no trabalho.
Porém ser uma formiga é um grandioso pesadelo. E eu preciso de pesadelos. Estou farto dos sonhos, das prendas empacotadas que me oferecem como se eu fosse uma criancinha que não sabe o que quer e o que deseja.
E eu quero ser uma formiga. Mas aquela que passeia na cama dos outros e os torna miseráveis na sua grandeza, afectada e incomodada por coisinha tão pequena. Uma formiguinha com as suas patas minúsculas sapateando na pele de tão excelsas criaturas.
Na próxima sessão divinamente divãnica falarei do desejo da formiga que quer ser humana: que serei eu já totalmente formiga!
Até lá!
música para as formigas
Zeca Afonso- A formiga no carreiro
https://youtu.be/GMkB3bZP96k
à espera do espectáculo
quem?eu? não, tu!
josé
Desculpai que vos diga: mas há em mim uma coisa estranha, um desejo incontrolado, que me aparece todas as noites. Não sei se sofreis também de tamanho problema que me incomoda a vida, (não, não é a bexiga!) como uma formiga na cama a percorrer o corpo.
Como adivinhastes? É isso mesmo. Há em mim um desejo nocturno de ser formiga!
Não que eu aprecie muito quem rasteja e a arte de viver em formigueiros. Mas o meu pensamento é um formigueiro que quer ser uma simples formiga. Eu sei e conheço a fábula, não é preciso lembrar-me o canto das cigarras, o verão e a fome do inverno. Não quero salvar o couro e ter comida garantida para o inverno. Aliás, se eu fosse cigarra só cantava de inverno, porque se tenho que morrer que morra a cantar.
Mas não quero ser cigarra: prefiro o pesadelo operário das formigas, aquele passinho miúdo no carreiro, aquela carreira de animaizinhos de fraque, cientes do seu destino, que mal se distinguem do préstito funerário.
Talvez tenha alma de formiga: o que é certo, no meio de tudo, é que à noite me assalta um impulso quase criminoso de ser uma formiga. De andar a pensar no futuro, como coisa certa e garantida, de amealhar pequenas migalhas, pequenas poupanças, de pertencer a brigadas, de ir em fileira, de ser a sombra da outra e, de repente, num impulso ordenado e militar, todos em parada, e vai de fazer o trabalhinho para nos salvarmos.
Eu sei que estou a ser injusto: as formigas são essenciais e até têm alegria, controlada ao cronómetro claro, no trabalho.
Porém ser uma formiga é um grandioso pesadelo. E eu preciso de pesadelos. Estou farto dos sonhos, das prendas empacotadas que me oferecem como se eu fosse uma criancinha que não sabe o que quer e o que deseja.
E eu quero ser uma formiga. Mas aquela que passeia na cama dos outros e os torna miseráveis na sua grandeza, afectada e incomodada por coisinha tão pequena. Uma formiguinha com as suas patas minúsculas sapateando na pele de tão excelsas criaturas.
Na próxima sessão divinamente divãnica falarei do desejo da formiga que quer ser humana: que serei eu já totalmente formiga!
Até lá!
música para as formigas
Zeca Afonso- A formiga no carreiro
https://youtu.be/GMkB3bZP96k

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