foto
a luz das aparências e outros sucedâneos
2017, josé
do lado de cá da colina
falemos então das aparências
daquilo que Jankélévitch chamava un surplus de l'être,
(sim, porque em tempos, ouvi Bach, usei gabardine, sebosa
é verdade, e li sinas chinesas em livros-bolinhos estranhos
totalmente deformados pelas minhas mãos
e pensamentos ávidos sanguinários-!)
agora, cidadão exemplar da minha pátria
(não essa, a grande Pátria que devemos escrever
por deferência e educação com um grande P)
mas a minúscula aquela de que sou traidor desertor
a pátria das aparências a do meu pequeno eu
mas de que sou, como já disse,
cidadão exemplar cumpridor escrupuloso dos meus deveres
tendo até já sido condecorado com diversas ordens e desordens-
ora é esse extra, esse brinde do ser
para continuar a recordar os livros do pianista Jankélévitch
e do maldito hábito de fazer recitais de piano
soberbamente sorbónnicos aos seus alunos
enquanto explicava as modulações aéreas e vestais da música
ora com h e sem h, escolhei vocês, a hora que mais vos convém
são as aparências que me atormentam
neste inferno de aparências
onde esta fotografia encaixa como um icebergue transviado
mas sim, temos que nos cultivar
plantar rosas no corpo
(cala-te Schroeter, para que estás a clamar)
eu sei, eu sei queres que fale da ópera e das divas
mas hoje não é dia estou com febre
e o meu corpo está totalmente virado para os lás bemois
perdido neste mundo de aparências
e na verdade o que eu quero é falar desta fotografia
mas a coisa está complicada porque não sei quem é o fotógrafo
e, sobretudo, o que estava por detrás das colinas
porque se ele o fotógrafo soubesse o que faz
teria sido capaz de fotografar o que está do outro lado das colinas
porque era isso que ele queria ver
mas a máquina não lhe obedecia
e dizia casmurra eu só vejo aparências
e não me venhas com essa história do outro lado
se não, deixo-te já aqui na valeta apeado
acabo com a carga da bateria-
bem ficámos a saber que havia um caminho e uma valeta
e que viver na valeta é uma estranha forma de aparência fora das aparências-
e que todo este discurso não sai da aparência das palavras
que aparecem e desaparecem
como truques baratos de ilusionista-
recapitulemos, alguém disse vendo a Balada da Praia dos Cães,
onde cães farejam a morte
e correm cardealmente para norte
numa corrida de cardeais e respectivas mitras
portanto, lembremos a explosão das aparências
o encontro fulgurante da beleza com a destruição
e sejamos osíris recolhendo os cacos do mundo
na arqueologia de quem se embevece
olhando narcisisticamente para si-
mas isso não é o ser humano
aparência das aparências
(não, não Hegel, não é a tua vez
e não me venhas com a dialéctica trifásica do sim e do não
nem a eléctrica ideia dos indivíduos cosmohistóricos
ou cómico/trágico histórias
já que a história
se repete em mil e uma máscaras)
mas isso é o ser humano, dizia,
no momento em que fui interrompido pelo viscoso Hegel,
morto nobremente de cólera
(OK Foucault, foste tu que me disseste que não havia forma de contornar Hegel,
porque ele estava sempre à nossa espera de braços cruzados
na próxima esquina)
e o ser humano (espero não ser interropido por mais ninguém e até porque eu não sou o Beethoven e não consigo compor nenhuma sinfonia a partir do bater na porta do leiteiro)
mas dizia eu não é o ser humano o abismo de todas as aparências
o que faz delas o seu alimento diário
o que quer que as suas gotas de suor resplandeçam num belo corpo
e se auto-glorifica fazendo do mundo o seu espelho pessoal
ah, isto era uma pergunta,
só agore vem o ponto de interrogação
ponhamos então o ponto de interrogação
antes que se seja tarde-
tarde, para quê?
falemos então das aparências
e dos pontos de interrogação e de exclamação-
e na sintaxe do vento,
sim porque a há,
que alisou e penteou esta bela seara segada e cegada
na cegarrega dos dias
sejamos então as aparências-
e que trabalho elas nos dão para ser!
para mim
resta-me a última aparência-
fotografar o outro lado da colina
aquele aonde devia ter estado e não estive
aquele que me teria levado a desejar estar deste lado da colina-
aparentemente eu, josé, no aparente ano de 2017, naquele dia contaminado por apararências raras de bruxas e abóboras.
Vivam as cabaças do entrudo de aparências!
música
Jankélévitch : La musique et l'ineffable (la nostalgie)
https://youtu.be/O8s3zsH57js
a luz das aparências e outros sucedâneos
2017, josé
do lado de cá da colina
falemos então das aparências
daquilo que Jankélévitch chamava un surplus de l'être,
(sim, porque em tempos, ouvi Bach, usei gabardine, sebosa
é verdade, e li sinas chinesas em livros-bolinhos estranhos
totalmente deformados pelas minhas mãos
e pensamentos ávidos sanguinários-!)
agora, cidadão exemplar da minha pátria
(não essa, a grande Pátria que devemos escrever
por deferência e educação com um grande P)
mas a minúscula aquela de que sou traidor desertor
a pátria das aparências a do meu pequeno eu
mas de que sou, como já disse,
cidadão exemplar cumpridor escrupuloso dos meus deveres
tendo até já sido condecorado com diversas ordens e desordens-
ora é esse extra, esse brinde do ser
para continuar a recordar os livros do pianista Jankélévitch
e do maldito hábito de fazer recitais de piano
soberbamente sorbónnicos aos seus alunos
enquanto explicava as modulações aéreas e vestais da música
ora com h e sem h, escolhei vocês, a hora que mais vos convém
são as aparências que me atormentam
neste inferno de aparências
onde esta fotografia encaixa como um icebergue transviado
mas sim, temos que nos cultivar
plantar rosas no corpo
(cala-te Schroeter, para que estás a clamar)
eu sei, eu sei queres que fale da ópera e das divas
mas hoje não é dia estou com febre
e o meu corpo está totalmente virado para os lás bemois
perdido neste mundo de aparências
e na verdade o que eu quero é falar desta fotografia
mas a coisa está complicada porque não sei quem é o fotógrafo
e, sobretudo, o que estava por detrás das colinas
porque se ele o fotógrafo soubesse o que faz
teria sido capaz de fotografar o que está do outro lado das colinas
porque era isso que ele queria ver
mas a máquina não lhe obedecia
e dizia casmurra eu só vejo aparências
e não me venhas com essa história do outro lado
se não, deixo-te já aqui na valeta apeado
acabo com a carga da bateria-
bem ficámos a saber que havia um caminho e uma valeta
e que viver na valeta é uma estranha forma de aparência fora das aparências-
e que todo este discurso não sai da aparência das palavras
que aparecem e desaparecem
como truques baratos de ilusionista-
recapitulemos, alguém disse vendo a Balada da Praia dos Cães,
onde cães farejam a morte
e correm cardealmente para norte
numa corrida de cardeais e respectivas mitras
portanto, lembremos a explosão das aparências
o encontro fulgurante da beleza com a destruição
e sejamos osíris recolhendo os cacos do mundo
na arqueologia de quem se embevece
olhando narcisisticamente para si-
mas isso não é o ser humano
aparência das aparências
(não, não Hegel, não é a tua vez
e não me venhas com a dialéctica trifásica do sim e do não
nem a eléctrica ideia dos indivíduos cosmohistóricos
ou cómico/trágico histórias
já que a história
se repete em mil e uma máscaras)
mas isso é o ser humano, dizia,
no momento em que fui interrompido pelo viscoso Hegel,
morto nobremente de cólera
(OK Foucault, foste tu que me disseste que não havia forma de contornar Hegel,
porque ele estava sempre à nossa espera de braços cruzados
na próxima esquina)
e o ser humano (espero não ser interropido por mais ninguém e até porque eu não sou o Beethoven e não consigo compor nenhuma sinfonia a partir do bater na porta do leiteiro)
mas dizia eu não é o ser humano o abismo de todas as aparências
o que faz delas o seu alimento diário
o que quer que as suas gotas de suor resplandeçam num belo corpo
e se auto-glorifica fazendo do mundo o seu espelho pessoal
ah, isto era uma pergunta,
só agore vem o ponto de interrogação
ponhamos então o ponto de interrogação
antes que se seja tarde-
tarde, para quê?
falemos então das aparências
e dos pontos de interrogação e de exclamação-
e na sintaxe do vento,
sim porque a há,
que alisou e penteou esta bela seara segada e cegada
na cegarrega dos dias
sejamos então as aparências-
e que trabalho elas nos dão para ser!
para mim
resta-me a última aparência-
fotografar o outro lado da colina
aquele aonde devia ter estado e não estive
aquele que me teria levado a desejar estar deste lado da colina-
aparentemente eu, josé, no aparente ano de 2017, naquele dia contaminado por apararências raras de bruxas e abóboras.
Vivam as cabaças do entrudo de aparências!
música
Jankélévitch : La musique et l'ineffable (la nostalgie)
https://youtu.be/O8s3zsH57js
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