Foto
série
a densa ideia de ser matéria
2016, josé
O que é que uma fotografia regista? Entre o espaço e o tempo, aonde permanece a fotografia? Parece ser fantasma, espectro, encontro do real com o irreal, intersecção do permanente com o impermanente. Na sua geometria, no seu além abstracto, intervém uma paralisia e uma rigidez, que a fazem colar no mero espaço, nessa intuição pura de que falava Kant, nesse a priori sensorial, que é limite e condição das sensações, como se procurasse um espaço vazio. Mas, ao fazê-lo, nessa fonteira, não estará a entreabir a porta para o tempo, como se houvesse uma linha, onde tempo e espaço se encontram? Se podemos conceber um espaço vazio, sem sairmos da órbita da sensorialidade, dificilmente poderemos conceber um tempo puro, vazio, sem que sejamos catapultados para uma dimensão onde a sensorialidade entra em apneia. A realidade, na sua geometria fundamental e substancial, expressa na concepção cartesiana, pode ser fotografada, ou seja, reduzi-la a um esqueleto, a um diagrama e nada mais, para a qual posso conceber eixos ordenados? Ou toda a fotografia é a tentativa de, justamente, sair dessa camisa de forças que são o espaço e o tempo, para nos dizer algo que a custo se revela na sua dimensão espacial e temporal?
Na verdade, há em toda a tecnologia uma intromissão quase mágica na vida, como uma recriação ritualizada da realidade, que a insere no quotidiano e o legitima. A fotografia, com aura ou sem aura, para me cingir a uma das questões de Benjamin, tornou-se uma delas, habitante da religião do quotidiano onde, na procissão infindável de gestos e rituais, se colocou como banalização da imagem. Da imagem-sagrada e expressão do sagrado, vivemos hoje na imagem consagrada, ditada por mecanismos de aplauso e aclamação, que foram sempre o lirismo das populaças, para invocar Baudelaire. Nesse sentido, ela não passa de manipulação da realidade, no seu propagar e propagandear, o que motivou a cobiça de todos os poderes, capaz de reduzir o mundo a uma fotocópia infinita de si mesmo. No entanto, na sua singularidade mais profunda, parece haver nela como que um êxtase, um apelo a uma dimensão que justamente nos pede que saiamos da realidade e nos coloquemos numa espécie de desordem e névoa interiores, onde nos sentimos em dificuldade de entender a própria realidade. É nesse confronto obscuro com a realidade que ela se torna apelo a algo que só nela é: uma ontologia profunda do ver.
José
música
Philip Glass - The Photographer
https://youtu.be/HKdUMNdUHBo
série
a densa ideia de ser matéria
2016, josé
O que é que uma fotografia regista? Entre o espaço e o tempo, aonde permanece a fotografia? Parece ser fantasma, espectro, encontro do real com o irreal, intersecção do permanente com o impermanente. Na sua geometria, no seu além abstracto, intervém uma paralisia e uma rigidez, que a fazem colar no mero espaço, nessa intuição pura de que falava Kant, nesse a priori sensorial, que é limite e condição das sensações, como se procurasse um espaço vazio. Mas, ao fazê-lo, nessa fonteira, não estará a entreabir a porta para o tempo, como se houvesse uma linha, onde tempo e espaço se encontram? Se podemos conceber um espaço vazio, sem sairmos da órbita da sensorialidade, dificilmente poderemos conceber um tempo puro, vazio, sem que sejamos catapultados para uma dimensão onde a sensorialidade entra em apneia. A realidade, na sua geometria fundamental e substancial, expressa na concepção cartesiana, pode ser fotografada, ou seja, reduzi-la a um esqueleto, a um diagrama e nada mais, para a qual posso conceber eixos ordenados? Ou toda a fotografia é a tentativa de, justamente, sair dessa camisa de forças que são o espaço e o tempo, para nos dizer algo que a custo se revela na sua dimensão espacial e temporal?
Na verdade, há em toda a tecnologia uma intromissão quase mágica na vida, como uma recriação ritualizada da realidade, que a insere no quotidiano e o legitima. A fotografia, com aura ou sem aura, para me cingir a uma das questões de Benjamin, tornou-se uma delas, habitante da religião do quotidiano onde, na procissão infindável de gestos e rituais, se colocou como banalização da imagem. Da imagem-sagrada e expressão do sagrado, vivemos hoje na imagem consagrada, ditada por mecanismos de aplauso e aclamação, que foram sempre o lirismo das populaças, para invocar Baudelaire. Nesse sentido, ela não passa de manipulação da realidade, no seu propagar e propagandear, o que motivou a cobiça de todos os poderes, capaz de reduzir o mundo a uma fotocópia infinita de si mesmo. No entanto, na sua singularidade mais profunda, parece haver nela como que um êxtase, um apelo a uma dimensão que justamente nos pede que saiamos da realidade e nos coloquemos numa espécie de desordem e névoa interiores, onde nos sentimos em dificuldade de entender a própria realidade. É nesse confronto obscuro com a realidade que ela se torna apelo a algo que só nela é: uma ontologia profunda do ver.
José
música
Philip Glass - The Photographer
https://youtu.be/HKdUMNdUHBo
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