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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

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o sonho estilhaçado
josé


Por vezes venho e vou ou não sei
este animal que me descobre,
no esplendor deconhecido da hiena-
e os olhos são-me fósforos
que me ardem e consomem
e me distraem do que vejo
e as mãos certeiras farpas
que me espetam e magoam
e me agarram no que agarro.

E se caminho, sou já conspiração
e estou anónimo entre as árvores
disposto a ser apóstolo da chuva
a entoar o finito murmúrio dos dias
a ser princípio e estar perdido
com a cabeça entre as pernas:
estarei ainda abraçado à cegueira?

Já não me pertence nenhum destino,
quando olho e resisto vagarosamente
ao hipnotismo encadeante dos peixes.
E mergulho na força dos remos,
na memória cândida de me dizer adeus
quando se tem a idade das ilhas
e nos descrevem a fundura da voz
ao entardecer súbito das palavras.

Taciturna é a beleza lavada dos lençóis
e desse estar sonâmbulo
no centro obscuro das cobras,
na quebrada vela dos barcos
em que já ninguém embarca
e pressentem o labirinto dos naufrágios.

Só assim saberei o que digo
na ciência acordada das labaredas,
no transe desconexo de nenhuma verdade..

Faquir do vento planarei
sem já nada sentir
e como guindaste
erguerei a terra
até à leveza estonteante das nuvens.

Fragmento de um poema "às vezes ergo-me por dentro"
josé



música
Francis Poulenc - Improvisation 15 Hommage à Edith Piaf
pianista Pascal Rogé
https://youtu.be/GETFcTMU1JA
Foto

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