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quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

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A cidade que amo
com o rio que me corre
nas veias-
josé, 2015

ao rio Tejo

Nasces na minha alma
corres no meu corpo
transbordas todas as minhas margens
e no teu leito profundo
venho à superfície respirar-

trazes os montes frios de Albarracín
o olhar magnético do quebra-ossos
que numa manhã gelada
dentro de mim poisou

sei que dos amantes de Teruel
colheste as minhas lágrimas
que correm entre penhascos
onde a minha vida se precipitou-

trazes em cada gota de água
a escuridão dos bosques de Guadalajara
o lodo poderoso sedoso
que em mim se depositou

sei que de Aranjuez
ouviste a música dos jardins
e no palácio iluminado de rendas
foste de amantes trovador-

trazes a visão sombria de Toledo
o céu atormentado de El Greco
um raio que em tempestade
para sempre em ti caiu

sei que ainda ouves
o gutural som das forjas
e brilhas como a espada
que em mim se espetou-

trazes as cores de Talavera
a dança dos pés do oleiro
que com as suas mãos te torneou
e ao fogo as cores arrancou-

sei que te vi no Salto del Gitano
e do castelo me conquistaste
na fraga erguida pela vida
capela de ascética secura
pelo calor inclemente caiada-

trazes o troar dos centuriões
dos camiões das carroças
na ponte de Alcântara
a que na profecia de engenheiro
há-de durar enquanto durarem homens-

entras então clandestino
por entre fronteiras escarpadas
nesse país que já é teu destino
e trazes o olhar templário
dos cavaleiros de linho branco
no teu branco brando correr
depois de cerrares as últimas portas
e da última agonia do último parto
eu contigo escancarado desfalecer

e talvez em Abrantes já cantes
o corpo belo de Constança
e o Zêzere vindo dos cântaros
te vaze um olho com uma pena
que há-de na tua água
escrever o amor da escrava
a monção e os ventos do Índico
que já indicam o naufrágio
da tua epopeia no mar-
sei que numa gruta sobreviveste
caravela épica de pedra
a dos barões assinalados
e a dos heróis anónimos
nascidos na escuridão dos tempos

trazes a gótica luz de Santarém
espalhado tecido do mais puro linho
que no mar da Palha
brilha como imaculada toalha
onde as tágides de olhos límpidos
seduzem pescadores marinheiros
e poetas de rios de aldeia
que correm como heterónimos
na hidografia do pensamento-

trazes a ânsia do mar
amarrado ao cargueiro sol
que sai ao final do dia
e no bojo ferrugento do céu
ele, tu e eu para sempre desaparecemos-

2016, José

música
Concierto de Aranjuez (1939) - Joaquín Rodrigo, DRSO - Pepe Romero - Rafael Frühbeck de Burgos
https://youtu.be/ye-FvKCZp3s
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