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domingo, 18 de novembro de 2018

A ti, que me disseste que as árvores têm uma vida oculta


eu, que não escrevo poemas
sou irmão gémeo dos mortos
das vozes roucas que seguem no sangue
a luz abandonada das raparigas
plantas pensativas no parapeito da vida
e cresço dividido no que não sou
viajante paralisado no instinto de partir -

eu, que não escrevo poemas
sonho com estepes, cavalos, iaques
e veias escancaradas em noites tão escuras
que levam séculos a amanhecer
esfolando lentamente a pele do céu -

eu, que não escrevo poemas
conheço na dureza das paredes
o cinzel de um escultor cego
a espera atenta e poderosa das osgas
a errância  de todos os heróis
que atravessam rios no meio de névoas
e  logo a seguir caem de bruços
no silvo melancólico de uma espada - 

eu, que não escrevo poemas
conheço o castigo das palavras
que dão ordem de expulsão
e deixam solstícios na alma
e um vento febril nas mãos
e que no areal da multidão
assombram os olhos de estranhos fogos
ateados na calada da vida
por incendiários enlouquecidos -

eu, que não escrevo poemas
recito poemas perfeitos
no oceano dos livros que enfrentam o nada
e gravam sinais de vida
no flanco vincado das montanhas
onde vivem como reféns
os que, como eu, não escrevem poemas

2010, José, Irlanda


música
pourquoi j'écoute encore ta voix? pour toujours?
Arthur H & J.L.Trintignant - Le vertige du printemps - (Baba Love)
https://youtu.be/bddxKvX7qxo
Foto

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